Opinião
A nossa pré-temporada e a bola de neve
24 janeiro, 2018
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Este post é motivado pelo ótimo podcast Entrelinhas, dos grandes Renato Rodrigues e Leonardo Miranda. Antes, durante ou depois da leitura deste post recomendo ouvi-lo com bastante atenção. Principalmente a segunda parte, quando falam sobre a pré-temporada dos clubes brasileiros e seus problemas. Vamos tentar aprofundar na sequência.

 

Palmeiras, Pré-Temporada, Roger Machado,

César Greco / Ag. Palmeiras / Divulgação

Até alguns anos atrás, o período inicial do ano servia principalmente para a preparação física. Era tempo de “encher o tanque” para que os jogadores suportassem a carga de treinos e jogos ao longo de toda a temporada. Mas isso vem mudando. Cada vez mais os trabalhos no futebol estão integrados. Treinos físicos, técnicos e táticos se misturam. A exigência fica cada vez mais parecida com a dos jogos.

 

O motivo é simples: o jogo evoluiu. Hoje, times de futebol precisam se comportar como “organismos vivos”. Cada movimento de uma peça no tabuleiro influencia diretamente no desempenho das outras. Se não forem bem coordenados, tudo vai abaixo. É um castelo de cartas onde um erro em qualquer parte pode colocar tudo a perder. Por isso, cada vez mais, os grandes times trabalham para “desorganizar” o adversário, levando a um erro que desmorona todo o sistema. É o objetivo principal do jogo.

 

Mas para que um time se comporte coletivamente como esse organismo vivo demanda tempo e repetição. E aí começam as grandes incongruências da nossa pré-temporada. Normalmente, os clubes europeus trabalham o modelo proposto por algo entre 30 e 45 dias antes de começar para valer a colocar em prática o seu jogo. Neste ano, os clubes brasileiros tiveram em média 15 dias. O tempo é a metade quando, na teoria, deveria ser o dobro. O motivo? Por aqui trocamos mais de técnico e de jogadores. Elencos sofrem mudanças muito mais profundas que nos grandes clubes da Europa. A demanda para que as peças funcionem é maior.

 

Quando entramos no assunto elenco, vamos para outro problema grave da pré-temporada curta e o calendário apertado. Hoje é dia 24 de janeiro. O Ceará, que se apresentou em 2 de janeiro e contratou mais de 15 jogadores para 2018 já jogou três partidas oficiais na temporada. E usou até aqui 27 atletas. Como jogamos muitas partidas em sequência, precisamos de elencos maiores. Quanto mais gente, mais difícil repetir movimentos para que eles se tornem naturais. O Manchester City, líder isolado da Premier League, usou 26 jogadores até aqui na temporada 2017/2018, que já passou da metade. O Palmeiras, do técnico Roger Machado, foi o único time que conseguiu repetir a escalação inicial de uma partida para outra até aqui.

 

Na teoria, nossos clubes estão em pré-temporada ainda. Na prática, a pressão pelos resultados já começou. Guto Ferreira já é cobrado por um Bahia que perdeu os dois jogos que fez. Dorival Júnior foi obrigado a acelerar a entrada de Diego Souza no São Paulo. E exemplos não faltam Brasil afora.

 

No fim das contas, tudo isto está ligado à qualidade do jogo. E os problemas viram uma bola de neve que não para de crescer. Não é por acaso que quando assistimos um jogo do Campeonato Estadual e na sequência uma partida de um Campeonato Europeu parece que estamos acompanhando esportes diferentes. O futebol mudou, ainda que o nosso tenha ficado parado no tempo. A pré-temporada é o período mais importantes para aumentar o nível. Principalmente quando se tem um ano com dois jogos por semana em quase todas as semanas úteis. Mais ainda quando se tem os problemas citados acima. É preciso revê-la e respeitá-la.

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