Opinião
Impossível resumir um grande jogo a individualidades ou peso de camisa
14 Fevereiro, 2018
0
, , , , , ,

Após a vitória do Real Madrid sobre o PSG no confronto mais esperado das oitavas de final da Champions, caímos mais uma vez em um mar de clichês. Peso da camisa e comparações entre Neymar e Cristiano Ronaldo foram os principais, como se ambos disputassem um confronto individual.

 

Real Madrid, Cristiano Ronaldo,

Reuters

Houve muito mais no bom jogo do Santiago Bernabeu. Equilíbrio e um Paris que tentou encarar mesmo sofrendo na defesa com a ausência de Thiago Silva e no meio com a entrada de Lo Celso que foi muito mal em sua primeira chance como titular em partida europeia. Saiu na frente e sofreu o empate em um primeiro tempo de poucas chances. Empilhou decisões ruins no último terço quando era melhor no jogo e esteve mais perto do segundo gol. Foi prejudicado mais uma vez pela arbitragem. E sofreu dois gols no fim que deixam o confronto muito duro para o jogo da volta.

 

Não dá para comparar o desempenho de Neymar e Cristiano Ronaldo nessa altura da carreira de ambos. Neymar é necessário para o PSG. É quem cria e quem pode finalizar. Foi muito bem nos confrontos individuais, mas pecou na hora de definir. Tocou quando podia finalizar. Tentou driblar quando deveria passar. Mas não dá para resumir a melhor temporada da carreira dele em 90 minutos, em um jogo coletivo. Cristiano Ronaldo mudou. Não é mais o jogador que corre o campo todo, que dribla usando a força física. É cada vez mais um 9 finalizador, ainda que se movimente bastante e tenha muita inteligência no posicionamento. Vinha errando na frente do gol mas decidiu o jogo. Ainda que a temporada seja ruim, não dá para ignorar a capacidade do atual melhor jogador do mundo.

 

Também não dá para dizer que o peso da camisa definiu. Há jogadores qualificados e experientes dos dois lados. Também jovens cheios de potencial como Lo Celso que jogou muito mal e Asensio que entrou e mudou o jogo. Emery errou ao tirar Mbappé. No jogo de xadrez, Zidane percebeu que poderia usar mais o lado esquerdo, soltou Marcelo e colocou Asensio para jogar por ali. Ganhou o jogo nos minutos finais. Vantagem maior no placar do que foi no campo.

 

O PSG tem um baita time e pode reverter na volta. O Real é favorito para ficar com a classificação e pode até aproveitar o bom resultado para crescer na reta final da temporada e jogar o que jogou poucas vezes até aqui. Mas houve muito mais do que clichês baratos no Bernabeu. Houve um jogo de futebol, que é muitas vezes definido nos detalhes mas tem muito mais que detalhes. Sempre.

Opinião
Botafogo entre acertos e erros no país do aleatório
13 Fevereiro, 2018
0
, , ,

É difícil dizer se foi certo ou errado demitir Felipe Conceição tão no início da temporada. Oficializado em 23 de dezembro, o ex-auxiliar de Jair Ventura teve vida curta. Foram só sete jogos e menos de dois meses de trabalho. Decisão tomada com a cabeça quente pela eliminação vergonhosa na Copa do Brasil seguida de uma derrota para o Flamengo na semifinal do Campeonato Carioca. E o clube resolveu recomeçar.

 

Botafogo, Alberto Valentim,

Globoesporte.com

Se não dá para dizer se o tempo faria o trabalho de Conceição decolar, é fácil confirmar agora que contratá-lo foi um erro grave. Não é todo dia que sai do clube um auxiliar ou técnico da base pronto para comandar o profissional. Principalmente depois de um trabalho tão bom como o de Jair Ventura, que subiu o sarrafo para um clube que vinha de quedas seguidas para a Série B. Sem dinheiro para investir e com um elenco enfraquecido, era esperado que o Botafogo tivesse dificuldades. Alguém com mais estofo para segurar os altos e baixos do início do ano certamente seria um caminho mais seguro. É interessante ver um clube apostar em novos nomes em um mercado escasso e que oferece sempre os mesmos. Mas não adianta nada contratar sem convicção.

 

Também não adianta ter convicção na tomada de decisão se ela não condiz com o tamanho do clube. Como o incômodo acima do normal causado pela comemoração do “chororô” de Vinicius Júnior, que fez a diretoria do Botafogo proibir o Flamengo de jogar no Engenhão. Além de mostrar que sentiu o golpe, o clube com as contas combalidas deixou de faturar com o aluguel (mesmo que não fosse uma renda salvadora) e desvalorizou inclusive o torneio que disputa. A final do turno do Campeonato Carioca será disputada em outro estado. Inacreditável. E infantil.

 

Por fim, Alberto Valentim chega para ser o novo treinador. Mostrou conceitos importantes no Palmeiras no fim do ano passado, mas os resultados não acompanharam o trabalho. Também é um treinador com pouca experiência e que vai precisar de tempo. Alberto precisa aliar suas boas ideias com doses de realidade, observando o material humano que tem à disposição. Assim e com tempo, pode ser uma boa escolha. Mas se os resultados não vierem logo, pode ser o novo Felipe Conceição.

 

No país do aleatório, tudo pode dar certo ou errado. Tudo pode ter um recomeço bem antes do esperado. O Botafogo caminha entre acertos e erros, a espera de dias melhores. Precisa acreditar nas suas convicções de olho no seu tamanho e na sua realidade.

Opinião
Sucessão de erros faz Atlético recomeçar…de novo
9 Fevereiro, 2018
0
, ,

A demissão de Oswaldo de Oliveira pôs fim a mais uma inacreditável sucessão de erros do Atlético-MG no planejamento de seu futebol. Pela sexta vez desde a saída de Levir Culpi, no fim de 2015, o Galo vai recomeçar um trabalho com novo treinador.

 

Atlético-MG, Osvaldo Oliveira,

Bruno Cantini – Atlético-MG

É sempre difícil avaliar se é justa ou não a demissão de um profissional, principalmente porque a imprensa e a torcida nunca tem em mão todos os dados necessários. Financeiros e emocionais, principalmente. E eles pesam (muitas vezes mais do que deveria) no que os nossos clubes chamam de planejamento.

 

Chamado às pressas no fim do ano passado para salvar o time do rebaixamento, Oswaldo de Oliveira fez um trabalho razoável. Conseguiu cumprir sua missão que não era lá das mais difíceis e esteve perto de levar o time para a Libertadores. Mas raramente o time jogou um futebol agradável. E encerrou a temporada suando para vencer o time de transição do Grêmio, que já estava pensando no Mundial.

 

Com uma nova diretoria, o Atlético tinha todo o direito e dever de avaliar o trabalho e definir ou não pela permanência. Ainda na rádio Transamérica, eu disse algumas vezes que Oswaldo não seria meu técnico para 2018 pela incapacidade mostrada recentemente de conduzir trabalhos de longo prazo. Mas Alexandre Gallo não só optou por manter o comando técnico. Como era de se esperar, ele participou diretamente do processo de reformulação do elenco, indicando nomes como Samuel Xavier e Arouca e avalizando todos os outros contratados.

 

Seis jogos e uma inacreditável cena de descontrole depois (muitíssimo mal conduzida pela diretoria do clube), Oswaldo de Oliveira foi demitido. É possível argumentar que é justa a troca de um treinador que não conseguiu fazer o time jogar (nem mesmo em 2017). Também é preciso relembrar que a pré-temporada foi curta e que as competições estão apenas no início. Dois lados de uma mesma moeda.

 

Moeda que o Atlético-MG tem jogado para cima a cada trimestre, em média. Cara ou coroa, tudo parece uma questão de sorte ou destino. A vida vai recomeçar mais uma vez. Com a temporada no meio e com pouco dinheiro para investir em um elenco com carências de longa data. A impressão é que ficará a espera de um sopro de sucesso para recolocar tudo no lugar.

Opinião
Só há uma palavra para a eliminação do Botafogo
7 Fevereiro, 2018
0
, , ,

Vexame. Não há outra forma de definir a eliminação do Botafogo na primeira fase da Copa do Brasil diante do modesto Aparecidense. E será assim para qualquer outro clube da Série A que cair em sua estreia na competição. Independentemente do regulamento que favorece as “zebras”, a vantagem do empate e a enorme diferença técnica e financeira entre os clubes precisa garantir a classificação. Por mais que futebol seja um esporte cheio de imprevisibilidades, não dá para pensar em outro resultado.

 

Botafogo, Aparecidense, Copa do Brasil,

André Costa – Estadão Conteúdo

Mas é verdade que apesar da campanha invicta até então na temporada, o desempenho ridículo do Botafogo diante dos goianos não foi nenhuma grande surpresa. As duas vitórias que classificaram o time para as semifinais do Campeonato Carioca vieram no limite. E se somaram a empates contra times mais fracos tecnicamente.

 

Felipe Conceição, que ainda dá os primeiros passos como treinador, errou. No jogo mais importante do mês, apostou na titularidade de Dudu Cearense (que ainda não tinha começado um jogo em 2018) e alterou o esquema para um 3-4-3/5-4-1 que não funcionou bem. Mesmo com o gol cedo de Rodrigo Pimpão que deu ao time o ambiente que queria: vantagem confortável e possibilidade de jogar no contra-ataque.

 

Mas o Botafogo se confortou cedo demais. Não conseguiu aproveitar os espaços e se assustou com o jogo empatado após mais um gol pelo alto, desta vez do interminável Nonato. A situação deixou o jogo tenso. Enquanto os cariocas passaram a errar passes em profusão, os donos da casa tinham nada a perder. A Aparecidense já era melhor e pressionava quando Rodrigo Pimpão foi expulso exageradamente pela arbitragem. Pouco depois, o gol que definiu a classificação.

 

Ao mesmo tempo que me parece cedo para fazer qualquer avaliação mais profunda sobre trabalho dos times em 2018, fica claro que o Botafogo precisa avaliar a situação. Felipe Conceição não começa bem. Não é todo dia que um treinador sai da base e faz o que fez Jair Ventura. Faltam jogadores para um time que já dava sinais claros de queda no fim do ano passado e que foi muito pouco (ou nada) reforçado. Não dá para jogar tudo fora e começar do zero mas ainda é tempo para ajustes. Mal começou fevereiro e a pressão já está aí. O clássico contra o Flamengo no fim de semana pode piorar ainda mais a situação. Cabeça no lugar e convicção serão fundamentais para conseguir seguir em frente. Mesmo com as derrotas.

Opinião
Brasileirão 2018, o campeonato do atraso
6 Fevereiro, 2018
0
,

Foi realizado ontem na CBF o conselho técnico para o Campeonato Brasileiro de 2018. Não bastasse o gravíssimo problema do calendário, que mais uma vez passou um ciclo de Copa do Mundo sem dar passos importantes e espremeu pré-temporada e jogos, as decisões tomadas nesta segunda-feira escancararam o quanto estamos e vamos permanecer atrasados enquanto não levarmos o produto que temos a sério.

 

A começar pela liberação mais uma vez das vendas de mando de campo. Ainda que evitar nas últimas cinco rodadas elimine problemas mais graves, é evidente que gera um desequilíbrio na competição se um time jogar mais ou menos partidas que outros em ambiente favorável. Se um clube pequeno leva uma partida para uma cidade onde há mais torcedores do adversário visando a renda, ele naturalmente favorece o “visitante”. O correto é o clube indicar antes do início da competição qual estádio vai utilizar e qual a alternativa em caso de punição ou indisponibilidade do mesmo.

 

Mas o pior foi mesmo a decisão da não utilização do VAR (vídeo árbitro) nesta temporada. Já utilizado com sucesso em muitas das ligas da Europa, ele tem dirimido erros graves com rapidez e o uso está cada vez melhor e mais avançado. O Brasil não ter utilizado no fim do ano passado foi um erro. Deixar passar mais uma temporada é o cúmulo do atraso.

 

É evidente que a CBF é a principal culpada. Ainda que o resultado financeiro da entidade venha caindo nos últimos anos, em nenhuma temporada dos últimos 10 anos o lucro acumulado foi menor do que 40 milhões de reais. Dinheiro mais do que suficiente para ser reinvestido no futebol brasileiro e no principal torneio que ela organiza. Assumir os custos do VAR, mais do que uma obrigação, seria uma maneira de melhorar o produto e valorizar ainda mais a competição.

 

Mas não dá para eximir os clubes de culpa. Pelo contrário e por dois motivos.

 

O primeiro é que agem como cordeirinhos de uma entidade que além de se preocupar pouco com a melhora do produto, tem todos os últimos presidentes envolvidos em casos graves de corrupção e não há o menor sinal de mudança. Quando pensam em assumir a organização de qualquer competição, brigam entre si e acabam fracassando como o caso da Primeira Liga. Já deveriam há anos ter assumido as rédeas do Brasileirão, como acontece nas principais ligas da Europa. Mas são incapazes. Logo, são tão responsáveis quanto a CBF pelo atraso.

 

Mais do que isso, por mais absurdo que seja repassar o custo da adoção do VAR aos clubes, era necessário que eles fizessem o investimento. O custo de um erro grave pode ser muito maior do que um milhão, custo estimado (e superfaturad0) para a instalação em 2018. Um clube que ao invés da 16ª posição, ficar em 17º por conta do rebaixamento, além de um prêmio superior a 700 mil reais ainda perderá mídia, patrocínios e várias outras receitas jogando a segunda divisão no ano seguinte. Um time que ficar em segundo por conta de um impedimento mal marcado, pode perder mais de R$7 milhões.

 

No fim, o Brasileirão será mais uma vez o do atraso em 2018. Sem VAR, sem pré-temporada, com jogos acumulados e times cheios de problemas. Clubes vão culpar a CBF que vai culpar os clubes. No fundo, ninguém está disposto a buscar soluções. Quem sabe em 2019…