Opinião
Estreia do Cruzeiro é muito mais que o resultado
28 Fevereiro, 2018
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Um jogo de futebol vai muito além do resultado final. Até porque o esporte não é só físico e técnico. É psicológico e muitas vezes refém do acaso (sim, a bola entra ou não entra muitas vezes por acaso). E foi assim a estreia do Cruzeiro na Libertadores 2018 em um jogo duro diante do bom Racing. Derrota por 4 a 2 a parte, é possível considerar satisfatória a exibição do time.

 

Cruzeiro, Racing, Libertadores,

David Fernández/EFE

Não pelos muitos erros defensivos, claro. Principalmente na bola parada. Os três primeiros gols da equipe argentina saíram em jogadas diferentes, mas com o mesmo início e o mesmo fim. Falta batida e gol do ótimo Lautaro Martinez. Um aparecendo livre no meio da defesa, outro em jogada ensaiada e o último de cabeça. É possível relativizar as ausências de Fábio, Edilson e Léo no setor. Mais ainda o fato de o time só ter sofrido um gol em oito jogos no Campeonato Mineiro. Times de Mano Menezes levarem quatro gols em um só jogo é raridade. Mas o desempenho de ontem é algo que deve preocupar e ser trabalhado. A Libertadores não perdoa tantos erros.

 

Mas em geral há muitos pontos positivos na atuação do Cruzeiro no Cilindro. Futebol é um jogo também psicológico e o time tentou se impor até nos momentos mais duros. Jogou com bravura e coragem estando atrás ou em igualdade no placar. Criou muitas oportunidades. Se o acaso desse uma força nas bolas na trave de Arrascaeta e Rafinha, o 4 a 4 era um resultado para ser bastante comemorado no (na teoria) jogo mais duro para o time na primeira fase.

 

A saída de Fred logo no início também prejudicou um pouco a capacidade de usar a bola longa para tentar ficar com a sobra e fugir da marcação alta do Racing. Mas Rafael Sóbis entrou com boa mobilidade e o time conseguiu sair bem pelo chão mesmo com a partida abaixo de Ariel Cabral. O Racing é um time ofensivamente forte mas na defesa deixa bastante a desejar. Se a pressão inicial falha, sobra um latifúndio até a linha defensiva. E o Cruzeiro soube explorar bem, marcando dois gols e criando outras boas chances.

 

Era um jogo duro e a derrota deve ser tratada como um resultado natural. A primeira do Cruzeiro no ano, no primeiro grande teste. É claro que deixa dúvidas e elas precisam ser trabalhadas pelo treinador. Mas muito além do resultado, houve uma boa atuação (com erros além da medida) em um grande jogo na Argentina.

Opinião
Eliminação deve fazer Paraná repensar
23 Fevereiro, 2018
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Foi a primeira vez em 2018 que vi o Paraná em campo. Preocupante. Segundo time da Série A com o pior aproveitamento (25%, acima apenas do Grêmio que teve férias mais longas para o elenco por conta do Mundial e começou a temporada com um time B), foi eliminado com justiça da Copa do Brasil pelo Sampaio Corrêa, ainda que o gol dos donos da casa tenha sido marcado em pênalti que não existiu.

 

Wágner Lopes, que voltou ao clube em janeiro após a estranha saída de Matheus Costa, responsável pelo acesso, encontrou um time diferente daquele que ele havia deixado em maio do ano passado quando foi para o Japão. E apesar da ideia inicial de um contrato longo, durou apenas sete jogos (com uma vitória).

 

Com a troca no comando durante o Carnaval, o Paraná teve tempo já que estava eliminado do estadual para projetar a sequência. Ainda não escolheu o novo técnico e foi com o interino Ademir Fesan para o jogo de hoje. Baéz, Carlos Eduardo e Rodrigo Carioca estrearam na temporada entrando no segundo tempo. O time titular também sofreu algumas alterações. Nada animador.

 

O Sampaio teve o domínio do início ao fim do jogo, finalizou mais e poderia ter vencido com uma margem maior. Teve muita facilidade para entrar na defesa do Paraná, principalmente pelo lado esquerdo onde Mansur mostrou muita dificuldade na marcação. E os visitantes pouco ameaçaram, com erros técnicos simples e pouca mobilidade no setor ofensivo.

 

O Paraná chega ao fim de fevereiro com duas eliminações duras e sem técnico. Tem o elenco mais fraco da Série A. São nove dias até o próximo jogo, pelo segundo turno do Paranaense. Até lá, precisa sentar e repensar. Planejar com convicção e correção é o único caminho para salvar um ano que ainda está só no começo.

Opinião
Larghi enxergou o óbvio
22 Fevereiro, 2018
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Ao contrário do jogo que culminou com a saída de Oswaldo de Oliveira, ontem o Atlético-MG passou sem sustos na Copa do Brasil. Atuação de manual para tirar a invencibilidade do Botafogo-PB na temporada com direito a goleada: 4×0. O ainda interino Thiago Larghi repetiu o que fez no clássico contra o América (quando também venceu com boa margem apesar da arbitragem confusa): defesa segura e aproveitamento dos espaços.

 

Thiago Larghi, Atlético-MG, Copa do Brasil,

Bruno Cantini – Atlético

Não é de hoje que o Galo sofre com o sistema defensivo. Leonardo Silva não tem mais o mesmo poder de recuperação de outros tempos e Gabriel começou mal a temporada. O time que vem nos últimos anos se caracterizando por sofrer muitos gols passou ontem a segunda partida seguida em branco. Especialista na análise de desempenho, Larghi percebeu o óbvio: era preciso fazer o time mais seguro.

 

Para isso, fixou Adilson em frente à linha defensiva. Trouxe Erik para jogar por dentro, muitas vezes ao lado de Elias no 4-1-4-1. Com o atacante fazendo a função, perde em qualidade de passe mas ganha em velocidade para as transições. Deixou de lado a insistência com o indolente Cazares ou a pouca leitura dos espaços de Otero. Longe de ser brilhante, Erik consegue cumprir o mais importante para a função definida pelo técnico: fecha rápido as linhas quando o time perde a bola e aparece na frente quando ela é recuperada. Eficiente.

 

Depois de algumas dificuldades nos primeiros minutos, o Atlético saiu na frente com o gol de Róger Guedes e lidou com o jogo como fez no fim de semana. Deu a bola ao adversário e esperou. Esperou até os espaços ficarem claros para matar o jogo. No domingo, com Thomás Andrade. Ontem, com Cazares. Velocidade nos contra-ataques e resultado definido, com direito a Ricardo Oliveira balançando a rede pela terceira partida consecutiva e Otero chegando a seis assistências na temporada (superando Neílton, do Vitória).

 

Ainda é cedo para qualquer diagnóstico definitivo sobre o futuro de Thiago Larghi como técnico. O Atlético-MG venceu dois times mais fracos que ele tecnicamente e usou estratégia semelhante: contra-ataque e transições rápidas. Não vai funcionar sempre e será preciso maior repertório (principalmente quando sair atrás no placar). Mas o interino parece ter enxergado o óbvio e a diretoria precisa fazer o mesmo. Para definir se ele fica ou para buscar alguém que consiga entender a melhor maneira de fazer o Galo render.

Opinião
Diniz faz bem e é necessário
21 Fevereiro, 2018
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Já falei várias vezes aqui no blog e no Twitter: existem várias formas de jogar futebol. É um esporte complexo e cheio de possibilidades. No último Campeonato Brasileiro, no entanto, praticamente todos os times optaram por um estilo parecido. Linhas recuadas, transições rápidas, a espera de erros do adversário. Um festival de jogos chatos e ruins, ainda que tivéssemos alguns times muito bons em suas propostas. Fernando Diniz faz diferente. Quem contrata precisa saber que vai correr riscos.

 

Atlético-PR, Fernando Diniz, Copa do Brasil,

Joka Madruga/Futura Press

Como correu o Atlético-PR no eletrizante 5×4 contra o Tubarão pela segunda fase da Copa do Brasil. Não seria um absurdo se os catarinenses tivessem ficado com a vaga, ainda que fosse uma tremenda injustiça. Um grande jogo. O melhor da temporada 2018 no futebol brasileiro até agora.

 

É verdade que o primeiro tempo sem nenhum gol teve mais a cara de Fernando Diniz. O Atlético-PR manteve o 3-4-3 da estreia mas mostrou evolução em alguns aspectos importantes (foi só o segundo jogo do time no ano). Teve apenas um susto e controlou amplamente o adversário. Teve um pênalti não marcado e perdeu pelo menos três ótimas chances de abrir o placar. Jogou com qualidade e consistência. Mais uma vez teve os zagueiros ajudando na construção (vale pensar em um volante ou lateral fazendo a função para melhorar a velocidade e o passe), muitos passes curtos, pressão na saída de bola e todos participando das ações ofensivas.

 

O segundo tempo teve mais gols e menos controle. Bérgson melhorou a presença na frente após o primeiro tempo fraco de Ribamar e o gol saiu em ótimo passe de Guilherme, o melhor em campo, para a infiltração de Matheus Rosseto, único “volante” do time mas que pisa a área a todo instante. Daí em diante, uma loucura total. O Atlético-PR foi trágico na bola aérea defensiva e levou mais gols do que poderia levar. Mas em nenhum momento abandonou o seu estilo, o seu modelo e as suas ideias. Seguiu atacando, se arriscando, jogando. Sofreu com as viradas e buscou a vitória épica nos acréscimos com Gedoz. O perfil de Diniz exige mais controle, mas quando as coisas fogem dele não dá para abandonar as outras ideias.

 

Os abutres do resultado ficaram a espera de uma derrota do Furacão para condenar o treinador. Sem olhar para o todo: 33 finalizações, 65% de posse, mais de 550 passes com 95% de aproveitamento. O Atlético-PR jogou muito melhor do que o placar apertado é capaz de mostrar. Ter um treinador como ele traz riscos. Mas é bom e faz bem para um futebol que precisa de mais gente disposta a jogar.

Opinião
Ba-Vi da vergonha
19 Fevereiro, 2018
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Já havia falado aqui no início do mês sobre o bom início de temporada do Vitória, mesmo perdendo jogadores importantes no fim de janeiro. Também falamos sobre o começo do Bahia, que aos poucos vai se encontrando e melhorando os resultados com Guto Ferreira no comando e um elenco interessante. Os ingredientes para um bom clássico estavam postos. Mas terminou em um vexame histórico.

 

Kanu, Vitória, Bahia, Campeonato Baiano,

Reprodução TV

A discussão sobre comemorações de gol tem lados distintos e eu até concordo em alguns pontos com os dois. As vezes os exageros são desnecessários e acirram um clima que já é pesado por si só. Mas uma brincadeira com uma dose de provocação também deve ser vista como algo de um jogo que também é psicológico. E existem várias formas de ganhá-lo.

 

O que Vinicius fez após marcar o gol de empate do Bahia nada mais foi do que a comemoração que faz após cada gol marcado. A dança, inclusive, está no GIF que o tricolor usa para comemorar o gol do meia nas redes sociais. Mas os valentões do Vitória se sentiram provocados e resolveram transformar um clássico de futebol em uma luta de boxe. O que aconteceu depois da reação desmedida do goleiro Fernando Miguel não deixa lado certo ou errado dali em diante. Kanu agrediu covardemente com socos um companheiro de profissão. Ameaçou dizendo que “sabe onde ele mora”. Um festival de cenas grotescas que não devem ter espaço para acontecer. Jaílson Macedo se viu obrigado a expulsar um série de jogadores. Errou ao meu ver ao colocar para fora o autor do gol, que merecia no máximo um cartão amarelo se o árbitro considerasse que a comemoração foi provocativa. Depois, apenas apanhou. Muito.

 

Mas como nada é tão ruim que não possa piorar, o Vitória ainda teve Uilliam Corrêa expulso um pouco depois. E fez a vergonha de forçar mais um cartão vermelho para que o jogo acabasse já que não é permitido jogar com apenas seis atletas.

 

Não cabe discutir se a ordem veio da diretoria, do técnico Vágner Mancini ou se foi uma decisão dos jogadores. É uma vergonha e que merece punição dura. Muito dura. Para o clube, para o atleta que forçou o cartão vermelho e também para Kanu que sequer calçou as luvas antes de agredir o adversário. Não cabe no futebol brasileiro que fala em se organizar este tipo de situação. O Ba-Vi que começou como o jogo da paz terminou com uma enorme vergonha. Que não pode ser deixada de lado como se nada tivesse acontecido.